É sempre interessante ler jornais antigos e, ainda mais, os textos do jornalista pernambucano Mário Melo. Em 16 de outubro de 1955, na coluna abaixo, publicada no Jornal do Commercio de Pernambuco, ele fala sobre o centenário da famosa torre Malakoff, monumento do Bairro do Recife.
Segue com o texto original (incluindo as diferenças na língua):
(Renato Lima)

Jornal do Commercio – domingo – 16 de outubro de 1955
O centenário da tôrre Malakoff
Estamos no ano do centenário da monumental tôrre do extinto Arsenal da Marinha, geralmente conhecida pelo nome de Malakoff.
Sei que foi concluída em 1855. O dia de sua inauguração deve constar dos arquivos da Marinha, aqui ou no Rio de Janeiro, para onde teria sido levado talvez o daqui, quando extinguiram o Arsenal.
Se não teve a tôrre a sorte do Arco do Bom Jesus, que lhe ficava próximo, da igreja do Corpo Santos e dos Arcos de Santo Antônio e da Conceição, deve-o Pernambuco à luta tenaz e persistente do Instituto Arqueológico, para eviar a destruição a que fôra condenada.
A 11 de Junho de 1930 respondia o Ministro da Viação ao veemente apêlo do Instituto, que infelizmente era tarde para providenciar a permanência da tôrre.
Felizmente poucos dias depois aqui esteve o Ministro da Marinha, almirante Pinto da Luz, que prometeu à diretoria do Instituto interessar-se junto a seu colega da Viação para sustar a ordem de arrasamento, empenhado que também o era na conservação, visto tratar-se de edifício naval. E o tempo se foi passando e veio a revolução de Outubro e a tôrre não foi e possivelmente nunca será demolida.
Perdeu em parte sua imponência, porque, com a construção dos inestéticos arranha-céus, deixou de ser o edifício mais alto da Cidade. Mais ainda lhe dá, na parte da península, a feição característica que vem mantendo nestes cem anos.
Na luta por sua conservação, estudando-a, perquirindo-a, tive a felicidade de descobrir a origem do nome, que todos atribuíam ao do relojoeiro que fabricara seu colossal relógio.
Consegui saber que êste é de marca inglesa, armado em 1854 pelos relojoeiros Twarts and Reell, de Cherkenwell, não passando, portanto, de lenda Malakoff como relojoeiro.
A monumental porta do Arsenal de Marinha foi levantada ao tempo da guerra da Criméia, quando a tôrre de Malakoff era o principal baluarte de defesa de Sebastopol. Resistiu, durante meses, ao assédio dos exércitos francês e inglês. As notícias dos ataques e da formidável defesa chegavam aqui a espaço e talvez com exagero, por via marítima, a única de comunicação ao tempo. Aquela grandiosa obra, a maior para a época, tomava aos olhos dos recifenses, as proporções duma segunda Malakoff.

E o nome pegou e, pela fôrça da tradição, ninguém diz a tôrre do Arsenal de Marinha, porém invariavelmente a tôrre Malakoff.
Faço daqui um apêlo ao snr. Almirante Macedo Soares, para que não deixe de solenizar o centenário do monumento arquitectônico – na data de sua inauguração se esta for encontrada e ainda por vir, ou noutro qualquer caso, numa data da Marinha, - solenização a que deve associar-se o Município, pelo que de característico representa, pelo que de característico representa, para a cidade, a monumental tôrre.
Mário Melo