16.11.2008 - 22:37
A análise do Patrimonialismo através da Literatura Latino-Americana
O filósofo e professor universitário Ricardo Vélez Rodríguez nos brinda com mais um interessante lançamento. Ele, que já foi entrevistado este ano no Café Colombo sobre o livro “Patrimonialismo e a realidade latino-americana”, aprofunda o tema fazendo uma incursão sobre a expressão desse fenômeno na literatura do nosso continente. Abaixo, informações do próprio autor sobre a obra:

A análise do Patrimonialismo através da Literatura Latino-Americana
Ricardo Vélez Rodríguez
A Literatura, diz Fernando Cristóvão, da Universidade de Lisboa, é a “antropologia das antropologias”. Ela torna possível obtermos o retrato de corpo inteiro do homem comum, das suas convicções, temores e crenças profundas. Daí por que, no estudo das formações sociais, seja tão importante não fecharmos essa janela, que nos coloca diante “da vida como ela é”, segundo dizia Nelson Rodrigues.
Estudar o homem latino-americano com as crenças que balizam a construção do Estado, essa é a finalidade da obra lançada no último dia 5 de novembro, no Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.
A história dos países ibero-americanos é fruto dessa tendência secular, herdada dos colonizadores ibéricos, a enxergar o Estado como bem de família. A onda populista que varre o Continente é variante dessa tendência que leva a confundir público com privado.
O neopopulismo hodierno só reforçaria o aspecto carismático e de ação direta das novas lideranças latino-americanas: a justificativa para o exercício clânico do poder é o velho messianismo do “pai dos pobres”, que reorganiza as estruturas mediante uma ligação direta entre o povão e o próprio líder, com denúncias contra as “elites”, como responsáveis pelos fenômenos da pobreza e do atraso.
Esse seria o traço comum de líderes barulhentos como o presidente Chávez, da Venezuela e outros mandatários carismáticos que se acolheram à “Revolução Bolivariana”, como os presidentes Morales, da Bolívia e Correa, do Equador. Esse arquétipo não deixaria de estar presente, também, embora de forma mitigada, no populismo lulista, bem como no salvacionismo peronista, na Argentina, ambos presos a políticas assistencialistas que oneram brutalmente os respectivos tesouros e que protagonizam cirandas de corrupção com mensalões e malas de dólares à mostra.
Cinco obras representativas do imaginário social latino-americano foram escolhidas no livro em apreço: O outono do Patriarca, de García Márquez; Facundo: civilização e barbárie no pampa argentino, de Domingo Faustino Sarmiento; Antônio Chimango, de Amaro Juvenal; O ogro filantrópico, de Octavio Paz e O tempo e o vento, de Érico Veríssimo. Trata-se, evidentemente, de pequena mostra do panorama das letras latino-americanas, mas não por isso menos representativa. São inúmeros os autores que, na sua narrativa, debruçaram-se sobre a nossa realidade clânica e privatizante do poder do Estado, nos mais variados contextos históricos e sócio-culturais. Como não falar de Vargas Llosa, Miguel Angel Astúrias, Alejo Carpentier, José Eustasio Rivera, Jorge Icaza, Alcides Arguedas, Ernesto Sábato, Augusto Roa Bastos, Rômulo Betancur, etc?
O outono do patriarca de García Márquez inspira-se no impacto que produziu no Prêmio Nobel colombiano a figura do ditador venezuelano Juan Vicente Gómez, que exerceu o poder, administrando a república como a sua fazenda, entre 1908 e 1935. Facundo: civilização e barbárie no pampa argentino, do escritor e estadista Domingo Faustino Sarmiento, é um quadro fiel do processo de unificação das províncias do Rio da Prata ao redor de Buenos Aires, processo polarizado por dois anti-heróis telúricos, representantes da barbárie patrimonialista: Facundo Quiroga e Juan Manuel Rosas. Antônio Chimango, o belo poemeto campestre de Ramiro Barcelos (que adota o pseudônimo de Amaro Juvenal), constitui uma bem-humorada sátira contra a ditadura castilhista, que no Rio Grande do Sul perpetuou-se por longos quarenta anos, tendo ensejado um modelo administrativo que enxergava a coisa pública como a “Estância do Coronel Prates” (Júlio de Castilhos), com a ajuda servil do “Chimango”, Borges de Medeiros. O Ogro filantrópico, do Prêmio Nobel mexicano Octavio Paz, coloca a nu a estrutura patrimonial do Estado mexicano que, com o Partido Revolucionário Institucional, instaurou uma máquina de privatização do Estado por uma elite de bacharéis e tecnocratas corruptos. O tempo e o vento de Érico Veríssimo ilustra a forma em que evoluiu a antiga Estância de São Pedro, para um Brasil autocrático e tecnocrático, sob a férrea ditadura de Getúlio Vargas.
Quais as saídas que, à luz das obras analisadas, restam para a América Latina, em face da “utopia arcaica” como diria Vargas Llosa? Sarmiento, Octavio Paz e Érico Veríssimo considerariam que há uma luz no fim do túnel, na medida em que as nossas Nações entrem pelo caminho das reformas liberais, que tornem os respectivos Estados instrumentos de progresso, a serviço dos cidadãos. A questão da representação seria central. Já García Márquez e Amaro Juvenal são mais céticos. A sina do Estado patrimonial parece ser a da sua permanência ao longo dos séculos, num pesadelo sem fim. O Ditador busca se perpetuar, na ficção destes dois autores e, também, na vida real. É a sina trágica de Cuba (“sai Fidel, entra Castro”) ou da Venezuela, presa dos caprichos de um ditador vitalício. Como dizia Fidel à Rainha da Espanha, quando ela pedia uma aberturazinha democrática em Cuba: “Noooo, mi Reina! No puedo. Si abro un poquito, en seguida querrán un muchito. Eso ya lo hará mi sucesor” (La Reina muy de cerca, Madri, Editorial Planeta, 2008).
Resumo:
Título: A análise do Patrimonialismo através da Literatura Latino-Americana
Autor: Ricardo Vélez Rodríguez, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora; publicou em 2006, pela Editora Documenta Histórica, o livro: Patrimonialismo e a realidade latino-americana.
Preço de lançamento: R$24,00