28.09.2008 - 08:44
Crise financeira, crise de jornalismo
Crise financeira, crise de jornalismo
Foi comentado, há pouco neste espaço, o papel do acaso em projetos do Café Colombo.
Isso me fez lembrar o livro “Iludidos pelo acaso – a influência oculta da sorte nos mercados e na vida” de Nassim Nicholas Taleb. Eu li este livro uns dois anos atrás mas, na época, não tinha escrito uma resenha sobre ele. Qual não foi a minha surpresa de encontrar uma entrevista com o autor na edição de Veja desta semana, o que me motivou a abrir novamente o livro e escrever algumas linhas.
O fato da Veja ter entrevistado o financista grego é significativo. Na semana passada, a mesma revista (edição 2079) saía com um Tio Sam, cheio de dinheiro na mão, bravando nos ter salvo da crise financeira global. Uma semana depois chegava com uma edição às bancas mostrando que a crise havia piorado e, na entrevista com Taleb, enfatizava o erro de se fazer previsões em economia. Considero uma forma sutil de se fazer uma errata…
Nesse ponto, acho que a Economia Austríaca tem uma contribuição interessante ao negar alguns pressupostos neoclássicos e uma certa matematização excessiva do estudo da economia. Economia é ação humana, é tomada de decisões, e, por mais bons conselhos que se diga, as pessoas podem tomar decisões “erradas”. Entretanto, o futuro pode mostrar que tais decisões eram certas e nós (os conselheiros) é que não sabíamos. Assim acontece na decisão de escolher uma profissão, casamento, emprego etc. Elegantes modelos matemáticos tentam prever resultados, mas o imponderável é mais forte e, de certa forma, inexpugnável.


No mercado financeiro, pode-se ir da glória ao caos em questão de dias. Isso por causa da alavancagem – a possibilidade de investir alto com pouco dinheiro próprio – e instrumentos de derivativos. Dois prêmios Nobel de economia faziam parte do fundo americano Long Term Capital Management (LTCM), que naufragou por causa das repercussões da Crise Asiática, iniciada em 1997. Vale a pena recordar esse episódio:
“O que acontecia era que o Long-Term vendia segurança, ou proteção (hedge) aos investidores que queriam se defender de oscilações inusitadamente bruscas (para baixo ou, às vezes, para cima) dos preços das ações que possuíam. Assim como uma companhia de seguros acredita que pode lucrar vendendo proteção cara contra inundações a temerosos residentes de áreas à beira de um grande rio, o Long-Term pensou que podia ganhar calculando a probabilidade de uma série de eventos catastróficos nos mercados de ações com base no exame de prévios acontecimentos, e vendendo proteção por um alto preço a investidores nervosos. Infelizmente, o cálculo da probabilidade mostrou ser difícil porque a volatilidade do mercado foi extrema em 1998″ (Paul Blustein em “Vexame – os bastidores do FMI na crise que abalou o sistema financeiro mundial”, 2002).
O LTCM tinha modelos matemáticos que mostravam que diferentes títulos mantinham uma inter-relação entre si e era possível lucrar quando essas relações divergiam dos padrões históricos. Acontece que, numa crise, os valores divergem muito dos padrões históricos, o que resultou numa quebra do fundo e da reputação dos acadêmicos Robert Merton e Myron Scholes. Isso mostra também que é mais fácil passar no teste de uma comissão de notáveis (o Nobel) do que o teste de mercado – que aglutina conhecimento disperso e pode punir rapidamente a mesma estratégia que ontem era premiada (o LTCM chegou a dar 59% ao ano de retorno sobre o investimento).
A favor de livre mercados como sou, confesso não ter conseguido ainda fundamentar uma opinião sobre a liberalização em elevado grau do mercado financeiro. Há quem aponte as vantagens de um sistema financeiro integrado aos mercados mundiais e aberto, como Raghuram Rajan e Luigi Zingales no “Salvando o capitalismo dos capitalistas”. E há argumentos fortes do outro lado.
Basicamente, Rajan e Zingales lembram que onde não há mercado financeiro líquido, existe maior concentração do poder de emprestar, diminui o acesso ao capital por parte de novos empresários e prepondera o sucesso de quem já está estabelecido – aqueles que podem oferecer garantia real. Isso faz com que seja maior a influência de grandes banqueiros e governo em determinar quem tem acesso a crédito, o que as vezes é determinante para o sucesso do negócio.
Já em países com sistema financeiro mais desenvolvido, há maior financiamento para jovens empresários com grandes idéias mas pouco capital. Fundos de risco e acesso à bolsa de valores fizeram surgir, nos Estados Unidos, uma rica indústria de tecnologia da informação. Sergey Brin e Larry Page fizeram o Google graças ao modelo americano de financiamento de negócios. Se fossem brasileiros e batessem na porta do BNDES possivelmente nem seriam recebidos (o banco trabalha só para empresas grandes e consolidadas) – e é porque se trata do maior banco de investimento da América Latina.
Já o indiano Jagdish Bhagwati defende, praticamente, todos os aspectos de uma moderna economia liberal exceto a abertura da conta de capitais. Em seu livro “Em defesa da globalização” (Campus, 2004), ele mostra que esse fenômeno tem sim uma face social, traz mais benefícios aos trabalhadores do que prejuízos e os governos podem atuar como aliviador dos efeitos sociais de algumas indústrias afetadas pela liberalização comercial. Como é um processo em que se ganha mais do que se perde, parte desse ganho pode ser usada em políticas públicas. Como ele diz, “nem tudo, necessariamente, melhora sempre!”. Bloquear as mudanças é a pior estratégia, mas é possível fazer boa política criando mecanismos de adaptação aos trabalhadores e industriais que saem perdendo com a mudança (como capacitação de funcionários para novas funções ou crédito para indústrias se modernizarem/diversificarem o parque). A pior opção é o protecionismo, manter uma indústria artificialmente até o ponto em que isso é custoso demais e ela cai sem ter tido a chance de se adaptar.
Mas o que diz Bhagwati sobre mercados financeiros mundiais? “Os influxos de capital são arriscados simplesmente porque quando a confiança é abalada, o fato de a situação ser, inerentemente, falha em informações implica que os atos de poucos podem dar início ao movimento de boiada de outros. […] Talvez essa seja a melhor explicação para o que aconteceu na Ásia, apesar dos excelentes fundamentos. O enorme volume de empréstimos de capital de curto prazo talvez fosse administrável, objetivamente falando, mas seu mero tamanho já trazia em si as sementes do comportamento de pânico. Como não havia transparência a respeito do quanto fora tomado emprestado, o pânico se alastrou rapidamente, se auto-alimentando.”
Isso era sobre a crise iniciada em 1997. Hoje estamos 11 anos depois e volta-se a falar de crise. Mas passamos, de 2003 até o momento, um espetacular episódio de crescimento mundial, com repercussões muito positivas para países em desenvolvimento, pelo aumento dos preços de exportação de matérias-primas (de 2003 a 2008, 300% para o minério de ferro e 100% para soja, por exemplo). Uma enxurrada de dólares entrou em países como o Brasil pela via comercial (nossos produtos exportados passaram a ser mais caros) bem como em investimentos diretos na Bolsa de Valores. Tivemos uma pequena febre de abertura de ações (IPOs) e uma euforia, de governo, mídia (não este que escreve) e empresários de que a economia brasileira era blindada e competitiva – ainda que a infra-estrutura não tivesse melhorado, a segurança urbana indo de mal a pior, a incerteza jurisdicional continuasse tão incerta e a legislação trabalhista, arcaica.
O que acontecia? Um certo acaso, de surfar na onda de alta liquidez internacional – fruto da decisão irresponsável de manter taxas de juros muito baixas por tempo elevado por autoridades monetárias externas. Nesse cenário, quase tudo era uma boa oportunidade de investimento. Esse acaso, como lembra Taleb, faz com que traders idiotas pareçam brilhantes no momento em que o mercado está a favor e políticos de igual inteligência se capitalizem. “O acaso se manifesta sob a forma do idiota sortudo, definido como alguém que se beneficiou de uma porção desproporcional de sorte, mas que atribuiu seu sucesso a uma outra razão, geralmente muito precisa. […] É endêmica na política, se pensarmos no presidente da nação discursando sobre os empregos que `ele´ criou, `sua´ recuperação, e a inflação do `governo anterior´”.
E, nesse momento de crise, devemos repensar também o jornalismo. No “resumo dos capítulos” do livro de Taleb, o capítulo 2 tem o tópico “Como os jornalistas são adestrados a não compreender a série aleatória de eventos”, no 9 “O paradoxo do aniversário. Mais charlatães (e mais jornalistas)” e no 11 ainda “Um pouco mais sobre a poluição jornalística.”
Para ele, o jornalismo está distribuindo mais ruído do que informação destilada. E isso está virando método, pois serve para atrair a atenção geral. Não é a toa que qualquer balanço dos mercados já se fala em 1929, que a cada falência a notícia adote tons de fim do mundo. O olhar de curto prazo e a falta de pudor em reconhecer limitações é premiada. “Na verdade, jornalistas inteligentes são frequentemente penalizados. […] o jornalismo vai para onde pode atrair nossa atenção, com ferroadas sonoras apropriadas”, diz Taleb. Por vezes, simplesmente não é possível saber porque, em determinado dia, o mercado reagiu de certa forma ou de outra. Tentar explicar é um mero exercício de palavras, que preenche a pauta do dia, mas não corresponde à realidade. Da mesma forma, o fato da Casa Branca ter lançado um pacote de US$ 700 bilhões não significaria que “o governo americano evita o colapso financeiro mundial e nunca mais Wall Street será a mesma”, como pregava a edição de Veja.
É sintomático que a melhor revista de variedades nacional tenha caído, também, nesse erro. Por aqui, a informação está mais composta de ruído do que de consistência. Libertar-se desse erro não é fácil. A demanda no jornalismo, especialmente em tempos online, é de concluir antes que se conheçam as premissas.
(Renato Lima)
Bela aula, Renato… Se a Veja comete esses tropeços, imagine o que sai na Carta Capital e demais publicações bancadas pelo gosverno federal…
Pois é Renato. O jornalismo essencialmente é voltado para o dia-a-dia. Quem por ofício deve procurar ver o todo é o pesquisador/cientista, percebendo o hoje como sequencia histórica e criando visões do amanhã. Quando o jornalismo se vê sem explicações de modelos acadêmicos e não percebe que a realidade é maior que os modelos (o tal acaso que não é captado por “ninguem”) fica mais perdido que cego em tiroteio. De fato, a realidade é mais livre que o cenário visto por qualquer modelo.
Muito bom texto Renato, gostei.
Adolfo
www.bdadolfo.blogspot.com
Renatão,
De fato uma bela análise acerca das incertezas contidas em tudo que disser respeito às ciências humanas, aí o Direito - minha ferramenta de trabalho - incluído.
Só um registro lateral: seria mais um belo exercício do imponderável buscar alcançar as consequência da permanência da liquidez mundial verificada nestes últimos tempos. Sob todos os aspectos: social, político, econômico e até mesmo (e talvez principalmente) ambiental.
Abraço grande.
Material Para Finanças Internacionais.
Olá, Renato. Escrevi um texto sobre a atual crise financeira sob a ótica das idéias do Taleb. Está em http://rodolfo.typepad.com/no_posso_evitar/2008/10/taleb-novamente.htm l
Espero que goste!
Abraço,
Rodolfo.
[…] Para quem gosta de marketing e internet, reproduzo abaixo uma matéria minha sobre a máquina Google de fazer dinheiro. Aproveito o post para comentar a interessante descoberta do blog do Rodolfo Araújo. Ele escreveu para comentar o post sobre “Crise financeira, crise de jornalismo” e recomendar artigos sobre as idéias de Nicholas Nassim Taleb. Visitando o blog descobri vários textos interessantes sobre inovação, estatística, resultado das intervenções governamentais (como a meia-entrada) entre outros. […]