22.05.2008 - 11:47
Osman Lins: “meios eletrônicos são liquidificadores mentais”
Do fundo do baú, segue uma entrevista duplamente interessante, tanto em razão do entrevistado, Osman Lins, quanto pelo entrevistador, Alberto da Cunha Melo. Resgatado do Jornal do Commercio de Pernambuco, de 1973. Lins é autor, entre tantos outros trabalhos, de Lisbela e o Prisioneiro, sua peça mais popular e que virou filme pelas mãos de Guel Arraes, em 2003. Nesta entrevista, ele demonstra compartilhar temor muito comum entre intelectuais, o medo com as novas tecnologias, que no caso se tratava dos “meios eletrônicos de comunicação”. Pois é, Osman, sua entrevista e crítica resgato agora do meio tradicional – onde estava lá fechado e sem leitores - para um meio eletrônico, ganhando vida própria e difusão através da internet.
(Renato Lima)

Jornal do Commercio – 18 de julho de 1973
Osman Lins: “meios eletrônicos são liquidificadores mentais”
(Entrevista concedida a Alberto da Cunha Melo)
Afirmando que os meios eletrônicos de comunicação são liquidificadores mentais ou culturais, o romancista pernambucano Osman Lins, radicado há anos no sul do país, acredita ainda que “não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta”. E cita um exemplo esclarecedor: “Os dentistas têm observação que, com os liquidificadores, os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram enormemente as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação”.
Possuidor de um estilo que, aproveitando uma análise dos irmãos Campos em relação a Guimarães Rosa, é uma espécie de microcosmo, Osman Lins é um dos mais penetrantes visionários da atual ficção brasileira. Visionário não de espectros, mas de seres complexos, reais. Traduzido para o francês, alemão e inglês, Osman Lins alcançou grande repercussão na Europa com o seu livro “Nove Novena” (publicado em Paris sob o título de “Retable de Sainte Joana Carolina”). Fez parte das antologias: “Die Reiher und andere brasiliannische Erzahlungen”, Horst Erdmann Verlag, Hamburg (Trad. Curt_Meier Clason), “Moderne Brasilianische Erzahler, Walter Verlag (Trad. Carl Heupel), e “New Directions 25 (an international Anthology of Prose & Poetry) – New Directions, New York (Trad. Clotilde Wilson).
LÍNGUA PORTUGESA
Falando sobre os fatores que determinam a penetração de uma obra em língua portuguesa nos outros países, o romancista de “O fiel e a Pedra” declarou: “Normalmente, a escolha de um livro para edição no estrangeiro, seja ou não escrito em português, faz-se mediante duas condições básicas: alta qualidade literária ou boas possibilidades comerciais. Há também um tipo de livro nosso que interessa muito: o documento social ou político. Para nós, brasileiros, é em geral mais difícil o acesso a editores europeus e americanos que para os escritores de língua espanhola”.
E explica: “Isto porque todas as editoras têm leitores em espanhol e relativamente poucas as que têm leitores em português. Mas, de um modo ou de outro, vamos furando a barreira e nomes como Austran Dourado e Dalton Trevisan, infelizmente ainda não muito lidos no Brasil, já ultrapassaram fronteiras. Ainda este ano será editado na França um romance do nosso Hermilo Borba Filho”.
UNIVERSAL E REGIONAL
Confessando que não o estimula o desejo de conceituação do universal e do regional na arte, ou mais especificamente, na literatura, Osman Lins, com prudência e a segurança de seus depoimentos, declarou: “De qualquer modo, por ser muito especializada ou acadêmica, capaz de interessar apenas a um grupo restrito de pessoas, hesito em abordar este assunto numa entrevista. Eu diria apenas que “querer ou procurar ser” regional ou universal constitui erro desastroso. Talvez deva confessar, aqui, que, tendo vivido sempre intensamente a literatura, certos problemas nunca me preocuparam. Esse foi um deles. Nunca indaguei se seria ou se deveria ser regionalista ou universalista, assim como nunca me interessou saber a diferença entre novela e romance – e outros problemas paralisantes.”
LIVRO & ELETRÔNICA
McLuhan, com todas as suas distorções da história e sua técnica “poética” do “palavra por palavra” ainda continua na ordem do dia para muitos vanguardistas auto-exilados do mundo verbal, ou seja, da “Galáxia Gutenberg”. Para esses vanguardistas e para muitos leitores uma pergunta persiste: “com o extraordinário progresso dos meios eletrônicos de comunicação, conseguirão eles chegar a sucedâneos do livro? Osman Lins é dos poucos que têm uma concepção segura sobre o tema: “Sabe? Os dentistas têm observado que, com os liquidificadores os dentes das crianças tornaram-se mais fracos, mais vulneráveis e que aumentaram as arcadas dentárias defeituosas. Há muitas crianças que, com os liquidificadores, passaram mesmo a não mastigar. Assim, é possível que uma grande parte dos seres humanos – até toda uma civilização, quem sabe? – abdique dos livros, em benefício dos meios eletrônicos de comunicação. Mas os meios eletrônicos de comunicação, o que são eles?”
E, respondendo à sua própria pergunta, considera-os “liquidificadores mentais ou culturais. Não se pode esperar que sejam muito ágeis e vigorosos os cérebros nutridos com tal dieta. Por outro lado, parece-nos muito mais digna a relação leitor-livro que a relação receptor-meio eletrônico. Um livro não entra pelo seu ouvido ou pelo seus olhos. Você não é, ante o livro um ser passivo. Um livro você lê. Você é, diante do livro, alguém que age: você o conquista. Palavra a palavra, as suas páginas. Pense mais: em que outro meio encontraremos, como no livro, um campo onde a liberdade pode esplender com mais força?”
Sobre “Nove novena” um dos seus livros mais famosos diz Osman Lins: “Eu diria que, com ‘Nove Novena’, restringe-se – ou é menos aparente – a dívida que todo escritor tem para com os que o antecederam. Isto é: com ‘Nove Novena’ eu atravesso um certo limiar e conquisto uma visão mais pessoal do mundo e da própria narrativa. Aliás, eu gostaria que uma das novelas desse livro fosse mais divulgada no Recife. Enviei, recentemente, uma carta à Editora Martins comunicando que não mais desejo ter os meus livros publicados por intermédio daquela casa. Uma das razões da minha decisão é certa ausência de dinamismo na organização da empresa, coisa muito prejudicial à divulgação de uma obra literária, principalmente se esta obra não segue os figurinos já conhecidos ou se o autor não pertence aos famosos júris da TV”.
Cita, em seguida, a sua novela que gostaria de ver nas mãos dos recifenses: “Intitula-se ‘Perdidos e Achados’. Há, nessa novela, uma grande presença do Recife: narra a história de uma criança que desaparece, certa manhã de verão, na praia de Boa Viagem. Quanto a ‘Avalovara’, sendo uma obra ampla e bastante complexa, torna-se difícil de falar sobre ela numa conversa breve. Também se passa no Recife e em Olinda uma das partes do livro, a que narra a paixão – atraibuída e exaltada – do protagonista por um andrógino. Acrescento que ‘Avalovara’ é nome inventado e refere-se a um pássaro também imaginário, que surge a certa altura da obra. Esse pássaro, entre outras coisas, é um símbolo do meu romance, no qual, por assim dizer, está toda a minha experiência como escritor e como homem”.
Muito interessante vocês terem nos brindado com essa entrevista do Osman Lins ao JC em julho de 1973. Acho que tem muita coisa boa esquecida nos arquivos dos nossos jornais fazendo companhia à poeira, e que precisam ser resgatadas, como o fez Renato Lima. Parabéns.
Prezado Renato Lima
Gostei de saber que você está se interessando pelo Osman Lins. Você está melhorando, mas, um aviso ao navegante não tão perdido que tu és, o Osman Lins era um crítico feroz da sociedade capitalista e, principalmente, do decantado e idolatrado onipresente mercado e da dita-dura de 64, aquela que vocês tentaram pasteurizar com a entrevista do ex-cabo do exército Edmilson Alberto de Melo, autor de “Por onde andará a memória nacional?”. É só ler A rainha dos cárceres da Grécia. Contudo, gostei de saber dos novos ares que sacodem as velas das naus do Colombo.
Um Abraço
Luís Domingues.
P.S.: Na mesma época dessa entrevista, no começo de dos anos 70, você encontrará outras entrevistas de Osman Lins e um excelente em 1976, quando do lançamento de A Rainha dos Cárceres da Grécia, no Diário de Pernambuco, e verás a crítica fulminante do homem ao mercado e a dita-dura.
Caríssimo Luís,
Grato por saber do seu constante interesse no nosso programa/site e pelos comentários acerca de Osman. Como você pode perceber, aqui damos espaço para diferentes publicações, não produzimos “pasteurizações”, afinal, fazer entrevistas não se trata de emitir opiniões.
Novamente fico feliz em saber que temos um público cativo, especialmente quando discordam ocasionalmente das nossas pautas ou elogiam outras. São vários os ventos que conduzem a nau do Colombo.