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19.01.2008 - 23:02

Joaquim Cardozo em entrevista de 1973

Engenheiro calculista, Joaquim Cardozo foi um dos mais destacados poetas de Pernambuco. E olhe que a concorrência é pesada, pois fica ao lado de Manoel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira… entre muitos outros. Trabalhou em importantes obras, como na própria construção de Brasília e escreveu livros de poesia e peças de teatro. Resgatando do acervo do Jornal do Commercio, do Recife, o Café Colombo traz entrevista concedida por Cardozo em 4 de julho de 1973, a José Mário Rodrigues. Cinco anos antes de sua morte e já como um homem recluso.

 

  

Jornal do Commercio – Recife, 4 de julho de 1973

Joaquim Cardozo: “vim de uma sombra”

Fomos fazer uma entrevista sobre questões literárias com o poeta Joaquim Cardozo. Mas, ao cruzar os batentes de sua casa, sentimos que não havia lugar para perguntas dessa ordem, pois, estava o poeta a meditar em sua cadeira de balanço, com o olhar de quem as dúvidas não mais perseguem nem o mundo vil e medíocre atinge. Lembramo-nos de Zaratrusta, quando voltou para a montanha e construiu seu mundo novo entoando cânticos aos solitários e aos que se encontravam juntos na solidão. Lá estava em sua casa o poeta Joaquim Cardozo – sua casa é sua montanha – a transmitir, apesar de tudo, uma paz duradoura e uma espera silenciosa. O que restava então, senão perguntar:

P – Joaquim, o que mais lhe marcou na vida?

R – O que mais me marcou na vida foi alcançar a compreensão de ter vindo de uma sombra, e de estar agora me dirigindo para uma outra sombra que suponho não ser a mesma de onde vim. O mistério maior não está na morte como em geral pensam os sábios das ciências teológicas, e sim no aparecimento da vida, sobretudo para os homens que, segundo Rainer Maria Rilke tem “existência aberta” – pois sabem que vão morrer, no entanto, nunca souberam que iriam nascer.

P – Se fosse possível voltar proustianamente o tempo, que tempo você queria novamente viver?

R – O tempo não volta, como o espaço não volta; o conceito de inversão do espaço e do tempo é o de inversão geométrica, o tempo é apenas uma coordenada que faz parte da determinação de uma “geodésica”; hoje não se considera mais o tempo uma variável como aparece na velha Mecânica analítica de Lagrange; o físico que descobriu o “elétron” voltava, isto é caminhava sobre sua “geodésica do mundo”, para o passado, na realidade não viu nisso um regresso; o elétron que caminha para o passado nada mais é o que o “posítron” que vai para o futuro. O tempo nada mais é que um eixo indicando a direção da luz; os homens fizeram dele um movimento paralelo à geração e a degeneração. Uma vez que a pergunta se prende a volta do tempo como a esperava Proust, respondo o que desejava neste caso, viver em todos os tempos passados, contrariando assim a afirmação de Heidegger de que os homens cogitam mais do futuro do que do passado.

P – Acha que a paz é uma conquista particular, íntima, de cada um ou uma conquista de todos?

R – O vínculo que faz da humanidade um conjunto é muito frágil, creio mesmo que não dá para se considerar a humanidade um conjunto de seres humanos; acho que cada um desses seres é ele mesmo não apenas um elemento, mais o conjunto constituído de um só elemento. Quem quiser saber como isso se explica basta ler a demonstração do Zaremba, notável lógico polonês. Assim sendo a paz pertence a cada um e há muitos que até não a possuem, nem mesmo a paz em que devemos morrer.

P – A poesia apareceu em você como uma necessidade ou como uma escolha?

R – Como necessidade, pois a poesia me apareceu com as descobertas que fui encontrando em mim mesmo, na medida em que vim vivendo. Hoje penso que a poesia no seu mais alto sentido está, como primitivamente, ligada a uma mitologia e ao seu mistério. No momento atual essa mitologia é a própria Ciência atual, mitologia que como as outras anteriores, do mundo grego, romano, hindu, etc. – deixou o campo dos sentidos humanos para penetrar no campo de uma imaginação possível. Basta lembrar que no tempo em que Philip Frank escreveu “Decadência da Física Mecanicista” era comum dizer-se: a verdade está na mística de uma equação diferencial, ou - Basta dizer a palavra “átomo” para que ele aparece. Falei da poesia em seu mais alto sentido e não no sentido mais geral que obedece a especulação de Etienne Louriau, que a considera inteiramente liberta da Lingüística, da filosofia e da Ciência.

P – Dizia Teilhard de Chardin: “o que envolve o mundo é a amizade”. Quais foram seus grandes amigos? E suas três maiores admirações no mundo literário, político e artístico?

R – Concordo com as palavras de Teilhard de Chardin; apesar de ter feito muita gente ficar meio intrigada comigo, ainda assim conto com muitos amigos; considero por exemplo meus amigos os estudantes das Escolas de Engenharia do Recife, de Belém do Pará, de Brasília, os estudantes das Escolas de Arquitetura do Recife, de Brasília, de São Paulo e os estudantes da Escola Técnica de Belo Horizonte, que me homenagearam por ocasião da colação dos seus graus. Considero meus amigos todos os poetas e editores que editaram os meus livros e ainda os críticos literários que aos meus versos dedicaram artigos e ainda aos tradutores que traduziram poemas meus, como também os diretores de cena que montaram peças minhas. Individualmente, porém, os meus melhores amigos foram, e ainda são muitos, como, por exemplo: José Maria de Albuquerque Macelo, Oscar Niemeyer, João Cabral de Melo Neto, Rodrigo de Melo Franco de Andrade etc. Quanto às maiores admirações no mundo literário são também muitas e somente poderão ser enumeradas depois de uma análise crítica relativista que não cabe numa simples entrevista.

P – Viver é perigoso? E se tivesse que nascer novamente você seria poeta?

R – O meu amigo Manoel Lubambo, com que mantive discussões intermináveis, mas sempre cordiais costumava dizer que onde está o homem está o perigo. Lubambo conheceu mais do que ninguém o perigo de ser homem. Quanto a ser poeta, se novamente nascer isto faz parte do mistério da vida.

P – Sabe-se que você tem uma grande admiração pelo Oriente. Até mesmo sua figura humana tem qualquer coisa de místico e de sábio Oriental. Como foi esse seu encontro com o Oriente?

R – Esse encontro se deu através dos pré-socráticos que no ponto de vista de Zerner estão associados aos filósofos hindus e chineses da mesma época, esses filósofos pré-socráticos que Zubiri achava indispensável serem conhecidos pelos alunos do seu curso de “Introdução a Filosofia”. Mas esse meu encontro com o Oriente não foi apenas através de Zerner e de Zubiri, e sim também dos poetas hindus: Valmiki, Harsa, Kalidasa Bhartrihari, Amaru etc., ou dos chineses; Wang-Wei, Du-Um, Du-Fu, Li Bai (ou Li-Tan-Po) e sobretudo Bai-Kiu-Vi, a quem Wales, notável sinólogo inglês dedicou um livro, ou dos Japoneses Basho, Issa, Kikaku etc ou ainda dos próprios através: AL-Mutanabi, Inru’ulquais, Abu Nuvas, Umar bem al-Farid, ben Zurati etc., dos poetas e dos seus metros: o “ÇloKa” o metro épico Hindu, de 32 sílabas, dividido em dois bemistíquios de 16 sílabas, cada um metro usados em vários em vários textos sânscritos; além deste também os “gathas” que vieram dos livros de Zoroastro etc. Na China os metros de quatro versos e cinco palavras ou quatro versos e sete palavras ou versos mais longos de Bai-Kiu-Yi. Na poesia árabe o Muwaxxaha, Rajaz, o Hadit, o Ramal e muitos outros; no Japão o Tanka, o Hai Ku ou o Renga. O que, porém, mais me seduziu na cultura oriental foram as danças; vi, no cinema, a bailarina Shanta Rao dançar o “Bharata-Satyam”, vi também no cinema a “brahmine”, que ajudou Jean Renoir no filme “O R o”, que neste filme dançou o KathaKali. E da China vi as danças da Ópera de Pequim, em espetáculo no Teatro Municipal do Rio de Janeiro: vi a dança dos “Três Encantos” , vi, na despedida da Favorita “a dança das espadas” e muitas outras; para uma entrevista creio que é bastante.

P – Qual o recanto do mundo de maior beleza que você viu?

R – O recanto, ou melhor os recantos de maior beleza que vi foi em Portugal; principalmente os que presenciei na velha cidade portuguesa de Alcobaça; com um amigo visitei uma família sua amiga, numa casa larga, arejada, janelas e portas abertas; na sala de jantar se reunia toda família constituída de muitas moças e rapazes numa alegria expansiva bem portuguesa; ali em Alcobaça a sombra da Catedral onde está o túmulo de D. Pedro e Dna. Inês de Castro “a que depois da morte foi rainha” nos versos românticos de Camões. Aquele interior assim tão livre, tão franco, nos fazia crer que estávamos em dia de festa.

P – Ante o mundo conturbado, de desencontros, guerras, totalitarismo das mais variadas espécies, que conselho você daria para um escritor jovem que aspira realizar uma grande obra?

R – Diante das transformações por que vem passando o mundo, acho que um jovem deve meditar primeiro sobre o que está acontecendo, e esperar que espontaneamente, essa obra que ele procura se realize dentro dele; não há propriamente um caminho previsível para se chegar a esse fim.

(Renato Lima)

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