Café Colombo

Textos do Público

30.11.2007 - 08:55

A Fitinha

Enviado por Carlito Lima

Noaldo Dantas, paraibano, jornalista e poeta publicou o texto: “O DIA EM QUE DEUS CRIOU ALAGOAS”, tornou-se um hino, um poema de nossa terra.

“Escrevi certa vez que Deus, além de brasileiro era alagoano. Em verdade não se cria um Estado com tantas belezas, sem cumplicidade. Sou capaz de imaginar o dia da criação de Alagoas: “Ô São Pedro pegue o estoque de azul mais puro e jogue dentro das manhãs encharcadas de sol, faça do mar um espelho do céu, polvilhando de jangadas brancas; quero os entardeceres sangrentos no horizonte, e aquelas lagoas e rios que estávamos guardando para uso particular, coloque-as nesse paraíso…”

Um dos pedaços mais bonitos desse paraíso que Deus estava guardando para uso particular é foz do São Francisco. O Rio corre entre inúmeras ilhas, coqueirais, manguezais, raízes aéreas, a água entre o azul e verde vai bater no meio do mar. É lá que Deus entra em férias, segundo Cacá Diegues.

Algum tempo atrás, em uma dessas ilhas aconteceu uma história de amor, ficou na imaginação popular, passou boca a boca até nossos dias. Na cidade de Piaçabuçu à beira do Velho Chico, um rapaz apaixonou-se por uma menina bonita, filha de um fazendeiro. Tornou-se amor proibido, o nosso herói era um tirador de coco das redondezas, e a menina muito rica. Ele prometeu à amada que um dia ficaria rico e casaria, começou a trabalhar comercializando coco em toda região do baixo São Francisco.

Depois de um ano, melhorou de vida, falou com o pai moça. Coronel Antônio Bento recusou dar a mão de Rosa, e foi taxativo, sua única filha só se casaria com doutor de anel no dedo. Não ia gastar tanto dinheiro com a educação da menina para casar com um tirador de coco. A mãe, Dona Maroca, mulher passiva e obediente, embora apoiasse o marido, tinha simpatia com o amor de Rosa pelo seu primeiro e único amor, Pedro dos Cocos, amigo de infância, amor de juventude.

Durante as férias Rosa arranjou uma maneira de encontrar-se com Pedro, às vezes com o discreto alcovito de Dona Maroca. Certa noite ao chegar de viagem, o Coronel Antônio Bento flagrou sua mimada filha abraçada e beijando o namorado. Na mesma hora mandou ela se recolher. Em casa deu maior carão na filha e na mulher, prometendo colocar Rosa interna no Colégio Santíssimo Sacramento de Maceió. E como castigo, mãe e filha, acompanhadas da criadagem, iam passar o restante das férias na casa da Ilha do Vento Fresco. Não queria ver na redondeza o pilantra sem eira nem beira que desmoralizou a família, tomando liberdade escandalosa com sua filha.

No dia seguinte, três canoas saíram do porto de Piaçabuçu até a Ilha do Vento Fresco, bem perto da foz do Velho Chico. As mulheres ficaram na casa grande com a proteção dos empregados, o coronel não tinha hora nem dia para chegar. Triste com os acontecimentos e pensando no seu amor, Rosa toda manhã vestia o maiô azul, ia banhar-se numa belíssima praia da ilha, contemplando o coqueiral, curtindo o banho de rio salgado.

Depois de uma semana, numa bela manhã de sol, ao mergulhar, Rosa ouviu um assovio, arrepiou-se toda, sentiu a presença de seu amado. Procurou pelos lados, só teve certeza que era ele quando avistou o vulto de Pedro entre os arbustos aquáticos. Abraçaram-se, entre beijos prometeram juras de amor. Arquitetaram um plano com receio do pai: Pedro só atracaria a canoa quando uma fitinha vermelha estivesse amarrada na palha do coqueiro anão junto ao cais, era sinal que o coronel não estava.

Assim passaram o resto das férias. Pedro ao ver a fitinha vermelha, o coração batendo de emoção, encostava a canoa nos arbustos, Rosa vinha encontrá-lo, ficavam namorando nas águas transparentes e belas do Rio São Francisco. Até que certo dia as águas transparentes tornaram-se turvas, vermelhas, sangue e sêmen se diluíram no Velho Chico.

Quando as férias acabaram foi um chororó, Rosa foi para Maceió. Em maio caiu doente, quando o pai soube da verdade, quando não se pôde esconder a gravidez, depois da ira e do desabafo, conformou-se, aceitou, preparou o casamento e pediu, que nem Zé Lotero, que colocasse o nome de Antônio Bento no bugrelo que ia nascer.

Rosa e Pedro tiveram 16 filhos, ainda moram na ilha que algum anônimo, louvando o amor, trocou-lhe o nome. Todo povo do baixo São Francisco só conhece aquele pedaço de paraíso como Ilha da Fitinha.

4 Comentários

  1. claudia Comentou em 06.05.2008 às 12:59

    Que texto lindoo =)
    Romance ingênuo, palavras certas para mostrar a beleza de Alagoas. Parabéns!

  2. Sonia Maria Frei Comentou em 25.09.2008 às 07:49

    Gente, estou encantada! Sou encantada com a grandeza de meus Escritores Brasileiros, com a beleza desse sitio, com a Ilha da Fitinha, com a alagoice amineirada paulistana de Deus, inventada por Noaldo! Grandes pessoas, que inventaram de fazer essa Ilha-sitio de poesia, beleza e alegria, alento para nossas almas sofridas de brasileiros mal amados, por desgovernantes chinfrins capachentos!

  3. Walrter Silveira Lima Comentou em 27.09.2008 às 08:03

    A fitinha deveria ser lida oor aqueles que
    querem acabar com o Velho Chico. Contos como esse faz a gente pensar em como o
    Velho Chico é rico em lendas e estórias.
    Uma estória que em poucas linhas diz da beleza desse estado. A Ilha da Fitinha. A Ilha que dixa no ar o amor.

  4. Walter Silveira Lima Comentou em 09.11.2008 às 08:51

    Quanto tempo que esse conto está aí? Eu mesmo já enviei comentário a respeito dele, inclusive encontra-se publicado. Eu pergunto:
    quando vai mudar? Todos os domingos leio essa seção e espero ler muitos outros artigos.
    Será que ninguém se importa em enviar outros escritos?

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