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25.11.2007 - 10:40

Livro sobre ditos populares e economia

Há muito de economia em ditos populares, como “faz a fama e deita na cama” ou “de graça, até injeção na testa”. O que poderia ser apenas uma interpretação isolada ganhou conteúdo e análise pormenorizada através do livro eletrônico “Em terra de cego quem tem um olho é rei: usando a teoria econômica para explicar ditados populares”, organizado pelo doutor em economia e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Adolfo Sachsida.

“O objetivo é mostrar aos alunos e a comunidade em geral que a teoria econômica é algo aplicável. Não é apenas teoria, mas que ela está aí para resolver problemas práticos do dia-a-dia”, diz Sachsida. A própria idéia do livro surgiu durante uma aula no curso de economia e contou com a rápida adesão de alunos e outros professores. Assim, vários colaboradores pensaram ditados populares e como eles poderiam ser analisados de acordo com o instrumental econômico.

O resultado é passear por ditados conhecidos e temas não tão conhecidos do público em geral, como teoria dos jogos, escolha pública, economia política e tamanho do Estado. No provérbio “atirou no que viu, acertou no que não viu”, Cláudio Shikida, professor do Ibmec (MG), analisa o caso de políticas públicas desenhadas para atender um determinado setor, mas que acaba criando problemas em outros. Esse é o caso de políticas industriais, que são vendidas como proteção a determinadas indústrias mas que provocam aumento nos preços pagos aos consumidores e ineficiências.

Na análise do dito “o diamante é o melhor amigo de uma mulher”, Renato Orozco, mestre em economia política internacional, vê um jogo estratégico entre homem e mulher com base na sinalização dada pelo anel de casamento. Nessa fórmula, a mulher gostaria de “maximizar sua felicidade depois do casamento e para isso ela precisa encontrar o parceiro que possibilite a maior renda esperada no futuro para ela, ou seja, alguém que ganhe bastante e esteja disposto a oferecer uma grande proporção dessa renda a sua esposa”, escreve. “A solução é observar o valor do anel como um sinal: quanto mais caro, maior a generosidade do pretendente e a confiança dele de que não necessitará do dinheiro no futuro”, aponta. “O resultado depende do período em que a proposta é feita. Se o homem é o primeiro a pedi-la em casamento, ele provavelmente terá que comprar um anel bem caro para sinalizar seu tipo, enquanto o último a propor para ela virá com um anel vagabundo ou até mesmo sem nenhum anel”, diz, lembrando que, neste modelo, a mulher quer evitar ficar para titia. Há algumas equações matemáticas e toda uma justificativa de teoria dos jogos neste capítulo.

Em “faz a fama e deita na cama”, o organizador da obra vê o ditado como um indício de economia fechada, pois, o fato dele ser popular, “é um indicativo claro de que a economia brasileira esta sujeita a um grau muito baixo de competição.” Isso porque, em países de mercado aberto, é preciso a todo o momento se reinventar e criar novas competências. “Empresários que fizeram fortuna no passado têm que continuar inovando sob o risco de tudo perderem. Marcas famosas estão constantemente sob a ameaça de novos concorrentes, e são obrigadas a mostrarem sua superioridade quase todo o tempo”, lembra. Mas, onde há pouca competição, se “deita na cama”, pois uma vez bom, é difícil ameçar essa posição (já que a concorrência de fora não é permitida chegar livremente).

O conceito mais recorrente é o das vantagens comparativas, anunciado ainda pelo economista clássico David Ricardo. Ele é que mostra como uma nação (ou pessoa) deve se concentrar em fazer o que é mais capaz, mais eficiente. O que explica as vantagens do comércio exterior, de importar aquilo que não é o seu forte e vender o que você produz melhor que os demais. “Outro conceito recorrente é o de que a maioria não tem sempre razão. Isso já apontavam Friedrich Hayek e John Stuart Mill, de que é preciso limitar o poder das maiorias, criar mecanismos disciplinadores”, diz Sachsida. Rodrigo Pereira, do Ipea, analisa “de cavalo dado não se olham os dentes” e faz uma correlação entre a baixa qualidade dos nossos representantes políticos e a tributação indireta. Como poucos pagam impostos diretos, como Imposto de Renda, muitos acreditam que o Estado é capaz de criar dinheiro, e sempre pedem sua intervenção. “Nos EUA o contribuinte mediano sente o peso dos impostos e por isso cobra. Um episódio interessante aconteceu com um diplomata brasileiro em Washington que estacionou seu carro num local proibido. Um sujeito que passava em frente parou e ficou olhando a cena com cara feia. O brasileiro então perguntou se ele era um guarda de trânsito. Resposta: No, but I am a taxpayer (Não, mas eu pago impostos). Enquanto isso, no Brasil os eleitores nem se dão o trabalho de olhar os dentes do cavalo”, escreve Pereira.

O livro pode ser baixado livremente em http://gustibusgustibus.files.wordpress.com/2007/11/dit2007.pdf
São 25 capítulos de vários colaboradores, de jovens estudantes a doutores em economia. Isso é um ponto fraco do livro - a qualidade varia muito - mas, como pode ser baixado de graça, até injeção na testa está valendo. “Há uns sete capitulos que eu considero sensacionais, o que já é um número muito bom”, justifica Sachsida, que não descarta fazer uma seleção e publicar a obra por uma editora.

(Renato Lima)

Um comentário

  1. […] Novembro 25, 2007 Posted by claudio in ditados populares, e-book, economia, provérbios. trackback Pois é. O Jornal do Commercio, de Pernambuco, fez uma matéria sobre ele. Uma versão ampliada damesma, feita pelo jornalista Renato Lima, está aqui. Eis um trecho: Há muito de economia em ditos populares, como “faz a fama e deita na cama” ou “de graça, até injeção na testa”. O que poderia ser apenas uma interpretação isolada ganhou conteúdo e análise pormenorizada através do livro eletrônico “Em terra de cego quem tem um olho é rei: usando a teoria econômica para explicar ditados populares”, organizado pelo doutor em economia e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Adolfo Sachsida. […]

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