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11.09.2007 - 21:00

A medida do crítico

A Academia Brasileira de Letras reedita Formação da Literatura Brasileira, de Antonio Candido, obra fundamental da crítica e da historiografia literária brasileira

por Eduardo Cesar Maia

Numa antecipação de algumas décadas à Teoria da Recepção, Antonio Candido estabeleceu, em um livro publicado há mais de 40 anos, a distinção entre a literatura como sistema social estabelecido, formado pelo eixo autor/obra/público, e aquelas que seriam simplesmente “manifestações literárias”.

Tal formulação desencadeou algumas polêmicas, pois com ela veio a afirmação de que, no Brasil, apenas no Arcadismo pode se caracterizar a ocorrência de um sistema que, no Romantismo, finalmente se concretizaria como uma tradição e uma cultura literária disseminadas socialmente.

Para o crítico, “a existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando os diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive; um mecanismo transmissor, (de modo geral a linguagem traduzida em estilos), que liga uns a outros”, é o que garante, quando os três elementos estão articulados, a ocorrência de “um tipo de comunicação inter-humana, a literatura”.

São tantas as contribuições desta obra de Candido aos estudos literários no Brasil que procurarei aqui concentrar-me em dois pontos cruciais discutidos no livro: a metodologia discutida no capítulo introdutório e a visão do autor em relação ao valor da literatura nacional numa perspectiva universal. Não se tratam, porém, dos temas fundamentais do livro – que seriam as análises das obras literárias em si – mas merecem uma reflexão por se tratarem de assuntos que atualmente ainda inflamam debates, acadêmicos ou jornalísticos.

O método crítico – Encontrar discussões, encaminhamentos e respostas consistentes a questões metodológicas fundamentais que ainda hoje dividem os teóricos e críticos de literatura, num livro editado pela primeira vez em 1959, não é somente um dado que confere mérito ao autor – é também a possibilidade preocupante de que uma das obras mais importantes, Formação da Literatura
Brasileira, de um dos principais críticos brasileiros, simplesmente não vem sendo mais lida (ou talvez venha sendo mal-lida) por muitos daqueles que hoje se dedicam ao campo da crítica e da teoria literária.

Como os jovens revolucionários que querem mudar o mundo antes mesmo de conhecê-lo ou os jovens escritores que se propõem a inovar a literatura obliterando a tradição às suas costas, os jovens críticos que emitem suas opiniões sobre os rumos e o papel da crítica literária contemporânea desconhecendo o que já vem sendo debatido ao longo dos anos estão condenados a sempre começar do zero, a voltar sempre ao mesmo ponto de partida daqueles que escreviam há 50 anos.

A grande discussão, no que concerne ao método crítico, proposta em Formação da Literatura Brasileira é acerca da integração entre “a investigação histórica e as orientações estéticas”, numa atitude de clara reprovação à hegemonia formalista (que, inclusive, recrudesceria mais tarde). Segundo José Guilherme Merquior, Candido se opunha à “prática de um esteticismo mal compreendido”, e diz que a influência do professor Candido sobre figuras como Davi Arriguci, Roberto Schwarz, Walnice Galvão, entre outros, foi o antídoto que tentou combater a “estruturalice” nas Letras brasileiras. “Tentou”, visto que no plano teórico as várias formas de formalismos, especialmente o concretismo, dominaram amplamente o debate acadêmico.

A articulação entre o meio social e a obra literária se dá, em Antonio Candido, de forma muito sofisticada e convincente, numa tentativa de “definir ao mesmo tempo o valor e a função das obras”. O método, portanto, é estético e histórico ao mesmo tempo, pois tratar a literatura por uma dessas formas exclusivamente é não entender como a tradição literária de um país se articula com as circunstâncias gerais da vida social. O crítico afirma que “o essencial no tocante às relações da ficção com a sociedade é demonstrar (não indicar apenas) de que maneira as condições sociais são interiorizadas e se transformam em estrutura literária, que pode ser analisada em si mesma”.

A literatura nacional – Logo no prefácio à 1° edição de Formação da Literatura Brasileira, A. Candido mostra que sua postura ante a literatura nacional não é de reverência cega nem de deslumbramento nacionalista. Para ele, nossa literatura é “galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem nos jardins das Musas…”, e não saciaria as necessidades estéticas e intelectuais de um leitor culto, como seria o caso de um inglês, um francês ou um alemão que só conhecessem seus próprios autores. Ao brasileiro que só tenha lido o acervo nacional faltará “senso de proporções” e estará fadado, por mais inteligente e erudito que seja, ao provincianismo intelectual.

Não obstante todas essas limitações comparativas, Candido defende que é ela – a literatura brasileira –, que nos exprime e “se não for amada, não revelará sua mensagem; e se não a amarmos, ninguém o fará por nós”. Afinal, a literatura não se constitui apenas como um “espelho” da cultura na qual está inserida, mas como um dos veículos mais importantes na construção desta própria cultura.

9 Comentários

  1. Felipe Albuquerque (Jornalismo - 6P-UFPE) Comentou em 13.01.2008 às 22:23

    Você teria sua opinião formada, ou apenas vai de acordo com as teses de cada doutrina ?
    Acho que deverias expor, também, sua visão, já que é um grande ícone do jornalismo pernambucano. Sempre leio o site, gosto muito, mas acho que deveriam expor, sempre, as suas visões críticas e a favor, também.

  2. Eduardo Maia Comentou em 17.01.2008 às 15:48

    Opa, Felipe, você tem a razão quanto à falta de um visão crítica no meu texto. Trata-se apenas de uma resenha de uma obra ´clássica´da crítica literária brasileira que já foi mote de muita discursão acadêmica.
    Ass: “O grande ícone do jornalismo pernambucano”.

  3. Felipe Albuquerque (Jornalismo - 6P-UFPE) Comentou em 22.01.2008 às 22:21

    rsrsrs.
    obrigado por responder, mas qnd falei em grande ícone, é desejando isso mesmo, pq adoro seus artigos e sou fã de carteirinha dessa pagina. abraços e muito sucesso na vida

  4. Ferreirinha Comentou em 25.03.2008 às 16:36

    Eduardo,
    Voando alto como uma “águia”!

  5. Bruno Rios Comentou em 13.04.2008 às 19:36

    Nobre Eduardo,

    “Amolengando falicamente” vosso ego.

    Um abraço!

    Do amigo,

    Bruno

  6. Marcelo Alencar Comentou em 29.07.2008 às 01:49

    Adorei sua resenha com relação a Formação da Literatura Brasileira, acho realmente que o conteúdo está bem explicado, porém, seria super interessante saber uma opinião crítica sua com relação ao pensamento de Antônio Cândido com a formação da Literatura Brasileira e seu início.
    Adorei parabéns.
    Podendo mandar-me textos de Antônio Cândido fico agradecido.

  7. Eliel Santos de Souza Comentou em 30.07.2008 às 12:51

    Parece-me, e me corrija se estiver errado, por favor, que a crítica, e os acadêmicos, terão uma visão mais amigável da literatura brasileira quando entenderem e acatarem a cultura brasileira como singular. Enquanto compararem, e orientarem nossas técnicas, com as dos autores europeus, nosso povo lerá os americanos, somente.

  8. RAIMUNDO NONATO DE OLIVEIRA Comentou em 18.09.2008 às 20:27

    OI.MUITO BOM SEU INTERESSE PELA LITERATURA, ENTRETANTO ,RECEIO QUE LEIA UM POUCO MAIS A RESPEITO, ANTES DE FAZER UMA RESENHA SOBRE UM LIVRO TÃO'’DECISIVO ‘’ DA NOSSA LITERATURA.SEU TEXTO PECOU NO TOANTE A PROJETO ESTÉTICO DEFENDIDO POR. A. CANDIDO.SEM MENCIONAR O LADO CRÍTICO DEFENDIDO PELO AUTOR ,SENDO O SEU ARTIGO FICANDO NO REDEMUNHO QUE SE LÊ EM TODO SITE DA INTERNETE. UM ABRAÇO

  9. Paulo Paiva Comentou em 11.10.2008 às 17:32

    Prezado Raimundo Nonato

    Se o caro amigo maranhense (com esse nome, com certeza é de São Luiz) puder me ajudar, pergunto: o que diabo é “ficar no toante” ?
    Um abraço,
    Paulo

    PS. Não se arrete não, com a brincadeira.

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