Café Colombo

19.07.2007 - 11:10

A “cafeína” por trás dos livros

LITERATURA
A “cafeína” por trás dos livros
Publicado em 19.07.2007
O programa Café Colombo lança livro que comemora mais de 200 veiculações, provando que é possível falar sobre literatura no rádio

A Rua Gonçalves Dias, no coração do Rio de Janeiro, guarda um dos capítulos mais importantes da história cultural do Brasil. Na Confeitaria Colombo, os intelectuais da então capital do País se reuniam para discutir a cultura e os rumos de um Brasil que dava os primeiros passos ao encontro da sua identidade. O espaço foi fundado em 1894. Ainda hoje, quem visita a cidade pode conferir o clima dessa época. No segundo andar, móveis, cristais, louças e plantas arquitetônicas originais levam o visitante a uma viagem no tempo.
A Confeitaria Colombo foi o enclave brasileiro da relação café (ou qualquer outro precioso líquido)/ discussão de idéias, conceito que a Europa cravou no nosso imaginário. Pois um grupo de fãs de literatura em Pernambuco, em 2002, tomou emprestada a história da Confeitaria Colombo e criou a sua própria utopia literária, o programa Café Colombo, que desde então é transmitido num outro veículo, igualmente utópico para esse tipo de proposta, o rádio.

Com mais de 200 programas exibidos todos os domingos pela Universitária FM 99,9 MHz, o grupo à frente do projeto (formado por Eduardo César Maia, Ketinaldo José, Marcelo Sandes, Marcelo Correia e Renato Lima) resolveu transformar as melhores entrevistas em livro: é o Conversas no café - uma seleção de entrevistas do Café Colombo, que tem noite de autógrafos hoje, a partir das 19h, na Livraria Cultura.

A “cafeína” do quinteto foi usada para extrair revelações de nomes como Marcelino Freire, Raimundo Carrero, Marco Lucchesi, Xico Sá, Eduardo Bueno, Ronaldo Correia de Brito, Alex e Ivanildo Sampaio, os dois últimos, respectivamente, colunista e diretor de redação do JC. A apresentação da obra ficou a cargo de Ronaldo Correia de Brito.

Alex, por exemplo, fala da repressão que seu trabalho sofreu durante os anos de 1960. “Eu sofri terrivelmente. Antes de 1964, eu estudei na Faculdade de Direito e, então, em todas as faculdades, eles faziam trotes e saíam com aquelas faixas enormes pelas ruas, falando sobre tudo, os estudantes pintados e tudo mais.”

Em outro momento, Xico Sá lembra a primeira vez que foi traído: “Eu lembro que saí lá do Derby para o Parque 13 de Maio, na chuva… Naquele tempo havia aquelas fichas telefônicas e eu, com dois quilos de ficha no bolso, parava em cada orelhão para ligar para a nega e, em cada orelhão, levava uma porrada maior. Quando eu cheguei no 13 de Maio, eu estava no chão, na lama. E é claro que ela estava com outro na hora. Era eu me aproximando da casa dela e ela com temor de que eu fosse até lá. Só que ela já tinha me comunicado e tudo: não me queria. Era chifre do grande e eu teimando contra aquela minha condição de enganado”.

Já Gilvan Lemos, revela o porquê dele ter dedicado um conto a um ladrão que lhe roubou quase R$ 2 mil, na Ponte Duarte Coelho. Como não conseguiu resgatar o dinheiro (“e eu vou perseguir um rapaz desse para cair morto?”, questionou-se na hora do assalto), a vingança do escritor foi no texto: “para me vingar dele, eu o matei num conto”.

São desses flagras da intimidade que são feitos os melhores momentos de Conversas no café.

Jornal do Commercio - Caderno C - 19/07/2007

 

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