26.06.2007 - 12:49
Entrevista de Eduardo Cesar Maia para o Jornal do Commercio
Entrevista cedida por Eduardo Cesar Maia, editor da Revista Continente Multicultural e produtor do Programa Café Colombo ao jornalista Schneider Carpeggiani para o Caderno C, do Jornal do Commercio (17.06.2007).

Em linhas gerais, sobre o que é tua dissertação sobre Vargas Llosa?
Primeiramente, gostaria de enfatizar que minha dissertação de mestrado procura analisar a obra crítica de Mario Vargas Llosa (e não a obra ficcional). Em 2004, no meu projeto de graduação em Jornalismo, fiz uma análise de Vargas Llosa como pensador político; agora, procuro ampliar o entendimento da visão de mundo do autor investigando de que forma suas concepções literárias se enquadram nessa visão “total” das coisas, e de que maneira esses dois lados se relacionam.
Tento analisar, dentre outras coisas, o enquadramento de Vargas Llosa dentro de uma tradição crítica. No rastro de grandes ensaístas hispânicos como Miguel de Unamuno, Azorín, José Ortega y Gasset, Benito Pérez Galdós e Octavio Paz, Vargas Llosa une erudição literária a uma consistente formação intelectual, histórica e filosófica de raiz humanista. É assim que, na sua crítica de literatura, o fundamental são as conexões que ele consegue estabelecer entre diferentes áreas do conhecimento. Para Vargas Llosa nenhum fenômeno cultural pode ser considerado isoladamente, sem suas conexões com a realidade.
A idéia de Liberdade é o centro do seu pensamento, seja em relação ao fenômeno literário ou à atividade política. Tal afirmação pode ser inferida tanto da sua obra ficcional quanto do seu pensamento crítico. Portanto, a visão política do escritor peruano não pode ser separada da sua visão literária, como quer boa parte dos seus críticos, principalmente os de esquerda.
Para Mario Vargas Llosa, a literatura, assim como a arte em geral, é um meio de auto-transcendência; a atividade literária (ou a sua crítica) não pode se afastar das questões centrais da atividade humana. Vargas Llosa vê na Literatura o testemunho por excelência das idéias, das crenças e dos sonhos que permeiam a vida social e, principalmente, vê o fenômeno literário como uma espécie de insubmissão do indivíduo contra o real, contra o cotidiano da vida social e contra suas próprias limitações — a literatura seria uma espécie de revolta.
Como você analisa a postura intelectual/política de Vargas Llosa, vista pelas esquerdas latino-americanas como conservadora?
Mario é basicamente um liberal. E o problema é que grande parte da intelectualidade politicamente correta da América-Latina defende que os valores “liberais” são promíscuos: carregados de más intenções e impregnados de interesses escusos. Em resumo: há ainda uma forte hegemonia da chamada “mentalidade anti-capitalista” no meio intelectual do nosso Continente. Mas também é correto dizer que já há algum tempo idéias e atitudes basicamente liberais começaram também a contaminar tanto a direita como a esquerda.
Respondendo mais diretamente à sua pergunta, eu diria que, em nossa realidade, a verdadeira postura conservadora é a de quem defende o incremento do intervencionismo estatal, do estado empresarial, da carga tributária e a de quem “demoniza” o mercado — o que é o oposto daquilo que Vargas Llosa preconiza para a política latino-americana.
A perspectiva de Mario Vargas Llosa sobre o futuro da América Latina é bastante otimista: o fato de a Esquerda começar a adotar de forma abrangente no Continente uma série de diretrizes de cunho liberal – ainda que disfarçando com uma retórica de negação – é sinal, para o intelectual peruano, de que houve um amadurecimento político, como o que aconteceu na Europa.
Outro dado importante é que também a direita latino-americana, em alguns países, parece ter amadurecido – trata-se do aparecimento de uma direita “civilizada” que já não pensa que a solução para todos os problemas nacionais seja transformar o governo em um quartel e que compreende a importância de fazer funcionar as instituições democráticas. Claro que há também os renitentes: figuras como Chávez e Morales são, na visão de Vargas Llosa, representantes de um populismo endêmico e ultrapassado.
A postura política de Vargas Llosa também pode ser vista na sua obra literária?
Defendo que sim. Inclusive, pode se perceber as etapas de evolução e amadurecimento do pensamento político de Vargas Llosa na leitura de suas obras de ficção. Não quero afirmar com isso que sua literatura está subordinada ao seu ideário político, mas acredito que são complementares. Um tema recorrente na obra do peruano é, só para dar um exemplo, a questão do autoritarismo nas relações políticas, sociais e pessoais, e esse é também um tema fundamental em suas reflexões políticas.

Por que você acha que é tão exigido do escritor latino-americano ter uma postura política?
Na verdade, eu não acho que isso seja uma particularidade latino-americana. Muitos escritores em todas as partes do mundo e em todas as épocas, de forma geral, envolveram-se em questões políticas e mesmo partidárias. Acho que uma figura emblemática nesse sentido (e que exerceu grande influência na formação intelectual de Mario Vargas Llosa) foi o filósofo francês J-P. Sartre, que era uma espécie de “consciência moral” de toda uma geração.
Numa democracia, a participação política é permitida a todas as pessoas e isso é bastante saudável. A questão se torna delicada quando as pessoas passam a tratar seus “heróis literários” como gurus ou salvadores: a visão de um escritor é só mais uma opinião no complexo jogo político-ideológico, e não a verdade absoluta a ser seguida.