Café Colombo

Textos do Público

03.06.2007 - 12:52

Cada Macaco no seu Galho (crônica só pra quem faz crítica)

Por Adilson Guimarães Jardim

Outro dia, um professor de faculdade anunciou uma descoberta singularíssima. A essas descobertas, que se dão a cada semestre, chamemos aqui de sigmunds. Nesse caso, o sigmund do professor era, na verdade, um objeto de especulação antiga (primata), que visa colocar o autor do texto literário para dentro do texto literário.

Voltaram as estórias da carochinha e do biografismo mais safado. São os tempos modernos, ou melhor, pós-modernos, ou ainda pós-modernistas, que é a coisa dentro da outra, uma suruba terminológica, mas sem direito ao cigarrinho final. A onda são os Estudos Culturais, esse que pega o freudismo (o sigmund do professor) e diz – com os dedos indicador e polegar formando um “l” sob o queixo, como dizem uns amigos meus e, estridente, ou entre - dentes: “é claro que é relevante você analisar uma obra literária, sabendo que o autor daquele texto é uma mulher, é um gay, é um negro, é os cambaus!” Se não aceitar esse fato, você está sendo um estruturalista (leia-se, ignorantes “extemporâneos”, escola es-truturalista). Vide também dicionário para as palavras “extemporâneos” e “vide”.

Voltando ao sigmund, longe de mim, discutir com o professor! Ou antes, discuto sim, senão este texto não sai. Estruturalista é negar que quem fala ali no texto é um narrador, ou um personagem condicionado por um escritor maneta, pretinho, delicado etc.? Errado, meus caros três leitores! Ser estruturalista é se lixar pra estória de manetas, pretinhos e gente delicada que o texto mostra, se mostrar. Estruturalista é partir do texto para o texto, pelo texto, sem o contexto.

Imagine-se, nessa onda do politicamente insatisfeito, se eu disser aqui que estou me lixando, isto sim, se o escritor do texto for maneta, pretinho ou delicado! Afinal, é problema dele, que pegue as coisas com o pé, ou lave a boca antes de cumprimentar a distinta gente branca heterossexual, se for complexado!

A paranóia é tão grande que corre o risco de se dizer que a palavra “felpudinho” só pode ser usada por uma mulher ou por um gay, assumido ou enrustido. Ou melhor, fazem isso, sim, chamam de Análise do Discurso (o sigmund de blacktie). Pensando bem, estou lascado, usei a palavra “felpudinho” num texto meu; então sou um ladrão ou sou gay e não sabia, cruzes! O negócio é vestir meu pretinho básico de uma vez e cair na vida, como uma animula vagula (procure-se dicionário para… Ah, deixa pra lá).

É pra falar sério? Então mude de texto, mia Senhor, que já suspeitam que as cantigas de amigo podem ter sido escritas por trovadores gays. Eu agüento? Me chamem de “estruturalista” só porque não sou negro, mulher, gay e maneta. Desculpem, na próxima vou tentar vir melhor trajado. Enquanto isso, o que faço com meu livro que estou lendo, daquele autor gay, daquela militante de ONG anti-racista, daquela poeta (ou poetisa?), se não sou nenhuma dessas coisas (”Será que não, seu enrustido frustrado, pé na senza-la?!”)?

Talvez a melhor opção seja eu não ler essas coisas; afinal jamais vou entender os coloquialismos dos negros da mama África, as nuanças da linguagem de coração de uma mulher, a linguagem cheia de dedos de um maneta! Nesse caso, esses autores que procurem sua turma! Cada macaco no seu galho.

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