29.05.2007 - 11:04
Evaldo Coutinho
Por Anco Márcio Tenório Vieira (professor do Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE)
A morte do professor Evaldo Coutinho, em 12 de maio último, coloca em pauta o quanto devemos, seja enquanto membros da Academia seja por parte dos órgãos de cultura do Estado, uma reflexão verticalizante sobre a sua obra e sobre a sua relevância para a criação e a consolidação da vida intelectual brasileira ao longo do século XX, particularmente no campo da Filosofia e da Estética.
No que diz respeito ao seu pensamento, pouco ou quase nada se produziu sobre ele. Com exceção de uma ou outra entrevista que ele concedeu ao longo dos seus 95 anos, de uns poucos artigos de jornal, de um documentário produzido por Marcos Lopes, em 2001, do discurso com que Nelson Saldanha o saudou quando da sua posse na APL, em 1988, do livro que à sua obra dedicou, em 1987, José Rafael de Menezes ou da Dissertação escrita em 1985 por Adelson da Silva Santos, nada mais podemos encontrar sobre esta que é a mais densa e relevante obra já produzida no Brasil no campo da Filosofia e, podemos dizer, uma das mais significativas no século XX em todo o mundo.
No que tange ao homem Evaldo Coutinho, um dos fundadores da Escola de Arquitetura e dos cursos de Letras e Filosofia da UFPE, pouco fizemos para promover seu nome e homenagear o intelectual íntegro que sempre pautou sua vida pela ética e por dar o melhor de si para o conhecimento e a consolidação das Instituições que criou ou ajudou a criar. Se Pernambuco tem, no campo intelectual, alguns nomes a oferecer ao Brasil e ao mundo, um desses nomes é o seu. Nome que se põe de pé ao lado dos de Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Joaquim Cardoso, Paulo Freire, João Cabral, Hermilo Borba Filho, José Antônio Gonsalves de Mello, Evaldo Cabral, Osman Lins e Aluísio Bezerra Coutinho, seu irmão.
No entanto, Evaldo Coutinho não só é dono daquela que talvez seja a única obra filosófica de fato produzida no Brasil, criador de um Sistema filosófico que parte do princípio solipsista de que o Ser é a sua vigília, mas também é detentor de um estilo que o coloca, assim como Gilberto Freyre, entre os grandes escritores da língua portuguesa em qualquer tempo. Saímos da sua obra não apenas mais inteligentes, como compreendendo melhor os usos e meandros da língua de Camões, sua plasticidade, e de como falamos um dos idiomas mais belos do mundo. Homem de espírito barroco, sua prosa reflete seu espírito, e estilisticamente só encontra equivalente nas Américas na obra não menos barroca do cubano Lezama Lima.
Foram dez livros produzidos num período de quase 20 anos, entre as décadas de 70 e 80, sendo sete no campo da filosofia — “A Ordem Fisionômica” — e três que versam sobre a filosofia do cinema e da arquitetura e estética. Obras que não encontram equivalentes em língua portuguesa. No entanto, continuam sendo livros que repousam nas bibliotecas (públicas ou particulares) na espera de continuadores críticos, que possam fazer deles ferramentas para as suas reflexões sobre a estética, o cinema, a arquitetura e, principalmente, a Filosofia.
Se a obra de Coutinho tem o Ser como sua vigília (ele dizia que sua obra era uma espécie de “Teologia do Eu”), esse mesmo ser, assim como a existência das coisas, se apresenta como uma alegoria. Uma alegoria que por mais resistente e perpetuável que seja, se pauta pela efêmera duração da vida consciente do Ser. Para Evaldo, “o Ser tem a idade de quem existe”. Daí ele afirmar que o repertório do Ser “consiste em acumular, dentro de si e atendendo ao padrão humano, o universo em todas as idades”. Sendo assim, ao longo da nossa existência morremos todas as vezes que alguém que nos conheceu morre. Com a morte do Ser, parte do que somos, do que compartilhamos juntos, vai com ele. A morte física seria apenas o corolário das sucessivas mortes que vamos existenciando ao longo da nossa vida. É o que ele denominava de “cintilação cósmica”.
Com o encantamento de Evaldo Coutinho todos nós que o conhecemos e compartilhamos da sua inteligência singular, morremos também um pouco. No entanto, o melhor de si continua ao nosso dispor: sua obra. Ela é a presença viva e metafórica da sua passagem entre nós. E como presença viva, ela nos convida para que compartilhemos consigo da sua aventura: a aventura do espírito em busca do conhecimento sobre si e o efêmero mundo que o rodeia.
Se desejamos fazer jus ao legado de Evaldo Coutinho, deveríamos por resguardar seu acervo particular; papel que recai sobre os órgãos de cultura do Estado. À Função Joaquim Nabuco, cabe constituir um arquivo com seus manuscritos, cartas e acervo iconográfico; à UFPE, sua morada intelectual, tentar acolher sua erudita biblioteca de Filosofia. Eis o conjunto da obra que nos foi legada por um homem que preferiu os bastidores da vida intelectual, o cultivo da amizade e o amor da sua inseparável Giselda aos holofotes dos palcos.
38 Comentários
Café Colombo - Seu programa de livros e idéias
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Sempre quis ler Evaldo Coutinho e até hoje adiei sua leitura. Em conversa com Marcus Accioly sobre os idealistas ingleses, o poeta de Sísifo lembrou seu nome. Fez um comentário sobre um livro seu, que deve ser de A Visão Existenciadora.
Não posso morrer ser ler de ponta a ponta esta obra.
Quando entrei no curso de filosofia da UFPE, em 2006, o então professor de introdução à filosofia Adelson Santos mencionou a obra de Evaldo Coutinho. Desde o primeiro momento surgiu meu interesse, mas limitei-me inicialmente a uma árdua leitura das “anotações prévias” de “O lugar de todos os lugares”. Fiquei sabendo do falecimento do autor e posteriormente a isso li o livro de Menezes e pouco depois li o início de suas três primeiras obras, com destaque para “A imagem autônoma”. Curioso é que eu - que já tinha lido vários textos sobre ele, tanto em jornais como na internet - só tenha me deparado ontem com o presente texto. Aproveito o espaço para divulgar que estou redigindo um texto sobre vida e obra do autor, e que conheço outros estudantes que tem interesse em estudar seu pensamento. Vida longa a Ordem Fisionômica.
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