Café Colombo

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15.02.2007 - 08:14

Breve notícia da literatura argentina contemporânea

Por Ronaldo Cagiano

É estranho que ainda se ainda se dêem as costas para a literatura argentina contemporânea. Da terra de Borges, Oliverio Girondo, Bioy Casares, Julio Cortázar, Roberto Arlt, Juan José Saer, Alfonsina Stormi, Silvina Ocampo, Juan Guelman, Benito Lynch e tantos outros, muito pouco sabemos da recente produção. Embora desconheçamos essa realidade estética, a verdade é que há uma poesia e uma prosa em plena efervescência, considerando-se não apenas os clássicos vivos, mas uma geração que vem construindo uma bibliografia da melhor qualidade.

Entre os nomes que integram o panorama da nova arte literária argentina, podemos citar a poesia de Eduardo Dalter, Claudio Sesín, Arturo Herrera, José Emílio Talarico, Sofía Vivo, Alejandro Acosta, Mirta Popesciel, Daniel Chirom, Ricardo Ruiz, Elizabeth Molver, Gisele Rodriguez, além da prosa de César Vera. São autores independentes que, apesar de produzirem à margem do mercado editorial, não só em Buenos Aires, mas em outras regiões do País, pertencem a uma geração que efetivamente traça um novo perfil na literatura do País, principalmente após tantos anos de ostracismo impingido á cena literária pela ditadura militar que durou menos de uma década, mas foi capaz de interromper, com grande prejuízo para a cultura argentina, um contínuo processo de consolidação da sua identidade cultural.

Dois escritores que pertencem à geração que sobreviveu à imperdoável era de chumbo e de obscurantismo político, Arturo Herrera e Claudio Sesín são exemplos de uma poética renovadora, representando o que poderíamos entender como uma poesia que retoma o projeto lírico, sem abandonar o compromisso com a crítica social. Ao lado de uma poesia que atravessou outras gerações, e é caudatária de diversas fases políticas e culturais da Argentina, como é o caso da produção de Rodolfo Alonso, um dos mais importantes autores da velha guarda e que hoje se mantém como uma das vozes mais lúcidas e respeitadas do seu País, Herrera e Sesín constituem-se em novo alento num cenário de outros nomes que começam a pontificar.

De outro lado, ressalte-se a prosa de César Augusto Vera Ance, um dos ficcionistas mais destacados do interior da Argentina. Também poeta, autor de textos teatrais e colaborador de jornais da Capital, Cesar Vera teve seu livro “Cuando se fueron los pájaros y otros cuentos”premiado em Salta (1987). Publicou ainda os relatos e os poemas de “El santo y la palabra” (1994) e a pungente novela “Concierto de amor para piano y armónica”, obra de grande carga imagética, que retrata as tensões de um pequeno lugarejo, que sofre grande transformação a partir da implantação de um hospital psiquiátrico. Ao largo dos acontecimentos que tiram a tranqüilidade do povoado, a figura mítica de Don Giovanni Viejo e sua Maria, alcunhada de “Estrela de Belém”, que protagonizam um trágico relacionamento amoroso. “Concierto de amor para piano y armónica” é a metáfora dos conflitos sociais, políticos, culturais e econômicos de um povo. É a luta de um povo fracionado por idéias divergentes, em que se percebe em oposição o arcaísmo e a modernidade, do conservadorismo e as regras morais, num escalonamento de valores que vai alterar a vida e os modos de toda a gente. Uma história que se expressa nas vozes dissonantes de seus personagens (Giovanni, Maria, Blas Cernero, Florentino Villegas, , Armando Alpirez Regalado y Ponce), gente que é testemunha e memória de uma época marcada pela desarmonia e o desconcerto. A narrativa de César Vera, ambientada numa atmosfera surrealista, mas povoada de verdades, cujos personagens merecem um enquadramento à altura das tensões que protagonizam, coloca este autor, sem dúvida, às alturas dos melhores ficcionistas latino-americanos, na linha de um García-Márqruez, um Vargas Llosa, um Jorge Amado e um Juan Rulfo.

Poetas da distante, mas promissora Catamarca, região noroeste da Argentina, Arturo e Claudio são autores sintonizados com as emergências e angústias de seu tempo. Em seu premiado livro “Dones de la vigília”, Herrera traz-nos, além de uma inflexão lírica, uma dimensão filosófica e dialética, fruto de sua aguda percepção crítica. Professor de literatura e latim na universidade local, há em sua confecção literária um diálogo profundo entre a poesia, a história e a filosofia, fruto de suas influências e de uma sólida formação humanista e lingüística. No poema “Casa sola”, reflete sobre o lirismo e da solidão da vida doméstica: “Siesta./ Todas las voces están ausentes./ La casa es un hueco grande./ En el pátio,/ el tiempo pasa como um canto tímido de pájaros./ Uniforme es el polvo de los muebles./ Em la penumbra, el olmo de los libros./ Voces difusas, imágenes lejanas;/ la soledad es tan amplia…/ crece y me oprime.,/ cresce y me desplaza./ El pensamiento me suspende com alas de ensueño.”

Autor de “La barbárie” (1993), “El círculo de fuego (1997) e lançará em breve “El signo del crepúsculo”, em seu artesanato poético, Claudio Sesín oferece-nos uma escritura que transita entre o estranhamento e o onírico, tendo a barbárie (social, política, econômica e humana) uma espécie de metaforização da própria condição humana. Sesín denúncia, eu seu livro “La Barbárie”, os eternos conflitos quotidianos da civilização moderna, que experimenta suas dicotomias. Em versos candentes, verdadeira catarse dos dilemas vigentes, explícito no canto XVII, temos um grito submerso e hemorrágico: “Pena y más pena/ sobre la inmensidad de los desiertos,/ sobre el desierto de los muertos,/ sobre los vivos/ que ha partir de entonces habitan el desierto./ Pena y más pena, y una sola lágrima./ El oro de la nada envenena los árboles/ con ecos del infierno meditado./ Las farsas adquirieron transparencias siniestras/ y la rabia nació, como el amor más puro,/ salvaje y fiera./ Quien quiera puede verla/ montar el viento norte por las tardes.” Por outro lado, uma certa visão escatológica está presente em “Alma”: Guardo em silêncio traços milenares/ submersos no fundo de meu abismo,/ como uma flor de cardo no batismo/ renascendo de ritos funerários.

Pertencente a uma geração intermediária, que assimila as influências da tradição e da vanguarda, a poesia de Eduardo Dalter consiste numa das vozes mais representativas da produção portenha. Editou por 18 anos a revista “Cuaderno Carmín de Poesía”, é professor de literatura na Universidade de Buenos Aires e em sua trajetória contabiliza, além de vasta produção e prêmios literários, a correspondência pessoal com Allen Ginsberg. Poeta de uma visão crítica e social aguçadas, o autor viveu em Gruiria (Venezuela) durante o período da ditadura, para escapar aos tentáculos da opressão militar e continuar a produzir sua poesia tensa e densa. Em seu trabalho, que não descuida do enfrentamento das questões críticas por que passou o povo e a política de seu país. Com aguçada consciência, que não permite desviar-se pelo panfletarismo e pela retórica, como nos poemas de “Silbos”, “Estos vientos”, “Hojas de sábila”, “Marcha de los desocupados” e “Mientras tanto”, Dalter reafirma seu compromisso com verdade, e também abre espaço para o lirismo e o decantamento da esperança no destino do homem e na viabilidade do amor. Seus versos revelam um profundo sentimento do mundo, como na poética do mestre Drummond. Dalter proclama o valor da vida em “No a la muerte” e “En Najaf y em Falluja. Já em “Las costas del golfo” explicita as ambigüidades existenciais: La vida confronta sus manos espesas/y sus voces, bajo el aroma de fritanga,/ en las esquinas, y las calles/ de la redonda se mecen/ hondamente de ese aroma/ turbio que es casi una divisa. Sopla/ dentro, muy dentro, la intempérie/ y los zamuros, en lo más alto/, ensayan geometrías espaciosas,/ en tanto el alacrán también acecha/con su soledad que baja entre los montes. Em poemas elegíacos, homenageia o grande poeta Olivério Girondo (El día de anteayer / parece más bien una encrucijada del futuro. Y Oliverio ríe, ríe/ desconsolado, como anuncia) e à sua musa, a artista plástica Nídia Santa Cruz, em “Fragmentos de una partitura: “tus ensueños/ van por la calle/ cual una hoja del aire/ hasta donde/ empieza la neblina. Autor, dentre outros, de Aviso de empleo (1971), En las señales terestres, (1975), Hojas de sábila, (1992), Aguas vivas (1993), Mareas (1997) e Macuro (2005), é um nome para a história da atual poesia argentina.

Com Rodolfo Alonso transitamos por uma outra vertente da poesia contemporânea, “uma poesia que não usa as palavras pela sensualidade que desprendem, mas pelo silêncio que concentram. Poesia que tenta exprimir o máximo de valores no mínimo de matéria vocabular, impondo-se uma concisão que chega à mudez”, como definiu definiu Carlos Drummond de Andrade, ao apresentar Hago el amor (1969).

O poeta, que esteve em abril no Rio de Janeiro, para receber a “Palma das Letras”, honraria concedida a autores estrangeiros pela Academia Brasileira de Letras, tem uma profunda ligação com o Brasil, tendo mantido intenso contato epistolar com Drummond e Murilo Mendes, dos quais se tornou amigo. Desde cedo sentiu grande empatia com a língua portuguesa, tendo sido o primeiro tradutor de Fernando Pessoa para a América Latina, além de verter as obras de Olavo Bilac, Drummond, Manuel Bandeira, Murilo Mendes e outros.

Depois de introduzir alguns de nossos autores na Argentina, a poesia de Rodolfo Alonso chegou recentemente por aqui com a chancela da Editora Thesaurus, de Brasília. Ao publicar sua “Antologia Pessoal” (edição bilíngüe, 196 pgs., R$20), preenche uma lacuna, mas ainda estamos longe de fazer justiça a um escritor cuja bibliografia está a merecer maior atenção entre nós. Alonso não esconde sua paixão pelo Brasil e faz da sua literatura uma ponte dialética e cultural, cristalizando um intercâmbio de experiências estéticas e humanas com os nossos autores e o nosso povo.

Tanto na poesia de ressonâncias líricas, quanto na de sopro social e crítico, a práxis poética de Rodolfo Alonso reveste-se de peculiar concentração textual que, mesmo nos poemas mais longos, prescinde de um discurso caudaloso.

Essa tessitura e acabamento encontramos em “Cuerpo presente”: Tantas como soñamos/ merecer una/ (Una mujer/ Muslos de tempestad/ senos de viento/ sagrado olor a mar)/ Toda mujer/ sentada/ en el augusto trono/ de su cintura/ Inmensa e no singularíssimo “Vizcacha”: ¿La metáfora viva que buscaron/ para buscarse todos, al buscarse,/ vuelve como parodia e ironía?/ ¿Este misterio, este país que somos/ y que se enzarza fiero en su destino/ como luz mala en el desierto, ahora o/ siempre bajo el solazo crudo, al rayo/ del deseo, la impaciencia y su hermana/ ciega: la impotencia? ¿Ni civiles/ ni bárbaros, apenas decadentes?/ ¿Esa imagen profunda de uno mismo/ donde abrevaba el mito, la verdad/ oculta porque oscura, oscura/ porque honda, eso que nos hacía/ ser y que íbamos a ser, culpables,/ desolados, quejosos, engreídos,/ ni Cruz ni Fierro fueron, sino El Viejo?.

Em “Anti Warhol”, dedicado a Marcel Duchamp, há um viés crítico, quando questiona oos fetiches e ícones da sociedade de consumo. Apesar da densidade do tema, não se desvia por um ritmo palavroso: Brillo de superficie en una cajá/ donde la nada brilla nada brilla/ brillo del triunfo que triunfa con brillar/ sobre la superficie del instante/ brillo de sociedad de saciedad/ contagio del hartazgo asco del ágio/ superficial alud la ola de nada/ que ávida nos envasa encenagados/ en catedrales selvas de consumo/ cárceles de mirar y ser mirado/ los bárbaros no esperes han llegado/ en la cadencia de la decadência/ la seducción que castra el vuelo raso/ que imagina tragedia al gallinero/ el despiadado espejo helada llama/ de la cautivadora que cautiva/ brillo de superficie donde encaja/ el anonadamiento de la nada/ la superficie opaca ya no oculta/ la superficie esquiva de la época/ la mera superficie el puro brillo/ de lo superficial no hay interior/ la apariencia culmina su espectáculo/ la superficie de la nada brilla.

A experiência de Alonso com a linguagem remonta à adolescência, quando aos 17 anos aproximou-se de um grupo de escritores de vanguarda que gravitavam em torno da revista “Poesia Buenos Aires”. Após contato com várias correntes, seu processo de rigor e precisão, que harmoniza forma e conteúdo, cada vez mais se aperfeiçoou. Alcançando o mais apurado grau de clareza e objetividade, persegue o essencial, sem desperdiçar toda a carga semântica e metafórica que criação poética oferece.

Autor de 25 livros, entre os quais Salud o nada (1954), Buenos vientos (1956), Hablar claro (1964), Relaciones (1968), Señora Vida (1979), Sol o sombra (1981), Música concreta (1994) e Defensa de la poesía (1997), a poesia de Rodolfo Alonso, que se renova a cada livro, chega em boa hora, sobretudo em tempos de consolidação do Mercosul, quando se espera, além da simbiose econômica, uma convivência que favoreça a valorização cultural e o compartilhamento das múltiplas expressões literárias do continente. E ao proclamar que hoy estamos aquí contenemos el mundo/ rebeldes a la muerte a la resurrección a la palabra, sua poesia reflete não apenas o compromisso estético com a linguagem, mas a necessidade de tocar no que é essencial, profundo e humano, convertendo-se num compromisso intelectual, em que as questões existenciais e sociais ensejam um grito que reverbera as suas e as nossas angústias, preocupados que estamos com os destinos do homem e do mundo.

As arquiteturas literárias de Arturo Herrera, Claudio Sesín, Eduardo Dalter, César Augusto Vera Ance e Rodolfo Alonso simbolizam a força da atual produção literária argentina. E, sobejamente, irrompe como uma um novo farol ético e estético, clareando os ermos territórios da alma, apontando um novo caminho para a arte do continente. Eis uma literatura renovada e inovadora, com suas vozes a dissecar a realidade, com seu viés de humanidade e resistência, com suas incisões e suas esperanças.

2 Comentários

  1. Hamilton Faria Comentou em 09.09.2007 às 17:50

    Parabéns pelo artigo .
    Um abraço,

    Hamilton Faria ( poeta )

  2. Gabriel Gomez Comentou em 12.06.2008 às 15:45

    Muito bom o texto… Só uma correção: É Alfonsina Storni e não Stormi.

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